Psicologia e Pureza

A Psicologia e o Sexo

Assim como encontramos em toda a parte os bons e os maus governantes, administradores regulares e outros excelentes, temos também na Psicologia os profissionais sérios e aqueles medianos. Escrevo para, pública e a abertamente, chamar a atenção de colegas psicólogos que fazem indicações levianas e irresponsáveis a quem procura por seus serviços. Falo sobre as recomendações de sexo, ou ainda, sobre recomendações da prática sexual.

Terreno delicado, pedregoso… entretanto, acredito que hão de concordar que, se antes esse assunto era tido como tabu para muitas sociedades, na nossa observamos uma banalização perigosa desse tema que, para muitos, é tido como sagrado.

Quando falamos sobre sexo estamos adentrando o território da nossa identidade (feminina e masculina), situação que pede atenção, cautela, certa destreza ou, no mínimo, respeito. Partiremos de um princípio básico e, acredito, de preponderante concordância: a prática do sexo envolve mais do que o ato. Ao tratar desse assunto ingressamos na intimidade do indivíduo, na identidade do feminino e masculino, adentramos um lugar onde é preciso ser convidado para dar passos e transitar com limitada liberdade.

Entretanto, tem chegado ao meu conhecimento relatos de inúmeras pessoas afirmando que seus psicoterapeutas indicam a prática de sexo para auxílio no tratamento de suas ansiedades, angústias e outros males que os acometem. A essas indicações que me refiro quando uso as palavras “leviana” e “irresponsável”. Explico.

psicologia (2)

Temos um conceito amplamente conhecido na Psicologia Existencial a que chamamos Redução Fenomenológica1. Resumidamente: trata-se da necessidade do profissional psicólogo agir no esforço de reduzir ao máximo seus próprios conceitos e posições em relação ao mundo, para que, em cena (no “setting terapêutico”), sobressaiam os posicionamentos, crenças e valores do paciente/cliente. Com essa prática, abrem-se as possibilidades para o paciente encontrar seus caminhos de maneira autêntica, aprofundando-se no autoconhecimento e adquirindo clareza sobre as situações interiores e exteriores da sua realidade. Assim, a atuação do terapeuta não consiste na exposição (muitas vezes parecida com imposição) dos valores e crenças dele próprio a respeito do que o outro deveria/poderia fazer, reduzindo sua atuação profissional a mero “palpiteiro”; antes, está a serviço do paciente que o procura, que possui seu próprio sistema de crenças e valores.

Se não tiver isso em mente, poderei tranquilamente indicar aos meus pacientes, por exemplo, que pulem de paraquedas sempre quando sentirem certa ansiedade ou necessidade de canalizar suas emoções. “Faz bem!”, “É bom demais! Fonte de energia!”, poderia dizer, caso fossem essas as minhas referências sobre o assunto. Entretanto, aparecem as questões fundamentais: poderei assumir a responsabilidade pelas consequências desse meu leviano “conselho”? Irei responder pelo caso de o paraquedas não abrir na hora devida? Ou ainda: responderei por um eventual ataque cardíaco do meu cliente?

Deixe-me colocar aqui alguns pontos relevantes acerca do aconselhamento sobre a prática do sexo: essa indicação indiscriminada para pacientes que se encontram em estado de angústia ou ansiedade, além de trazer riscos físicos (DST´s, gravidez não planejada, aborto etc), ameaça o emocional do indivíduo que acaba por enfrentar sentimentos de culpa, solidão e arrependimento; ou seja, tal “palpite” aleatório não apenas não ajuda como atrapalha o cenário do indivíduo em crise que busca auxílio especializado.

Afora esse desserviço de profissionais pouco comprometidos com a saúde integral de quem os procura, temos variadas realidades que são feridas com posturas desse tipo, como é o caso de pessoas que optam por não praticar o sexo (quem espera pelo matrimônio ou quem opta pela vida celibatária). Se o profissional psicólogo tem por função primeira prestar um serviço de saúde a quem o procura, a orientação pela prática do sexo para indivíduos em situações desse tipo irá desestabilizá-los ao invés de auxiliá-los.

No Código de Ética Profissional do Psicólogo3 encontramos no primeiro artigo o seguinte texto: “o psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano” – página 7. Ora, a que dignidade o profissional está servindo ao indicar a prática do sexo para seu paciente em estado de angústia? Qual integridade ele está preservando, que liberdade está promovendo?

Caso o fundamento desses “conselhos” por parte dos meus colegas psicólogos visam o alívio de sintomas que limitam o bem-viver do indivíduo, aponto para a contribuição de outras ciências que oferecem alternativas mais seguras e saudáveis. Com a finalidade de aliviar o estresse ou regular a endorfina no corpo, por exemplo, temos as indicações da medicina que prescreve atividades físicas – acompanhadas por um profissional da área. Para o tratamento de depressão leve, pode-se incentivar o indivíduo a encontrar sentido nas atividades do seu cotidiano e, inclusive, na própria depressão, como nos convida a Logoterapia2. E claro, em casos mais agravados, encaminhamento ao psiquiatra. Apenas para citar alguns exemplos de alternativas baseadas em ciência e escapar das meras especulações.

Vejam, não estou aqui condenando a prática do sexo ou criminalizando quem fale sobre o assunto. Pelo contrário, estou denunciando um comportamento profissional nocivo à adequada leitura desse dom, que traz em si tantos significados e preciosidades quando vivido em plenitude.

Assim, permeando apenas o terreno científico, observamos em atos dessa natureza a distinção entre um bom e um mau profissional, entre aquele que vai além dos “achismos” corriqueiros de uma sociedade superficial para o profissional diferenciado, que se faz respeitar porque respeita.

Ah, a mediocridade… um mal que destrói não apenas quem a pratica, mas se alastra silenciosamente no inconsciente coletivo4 dos que não se aprofundam.

Contra a omissão desse mal, eis aqui meu grito.

Notas:

  1. Redução Fenomenológica: trata-se de colocar entre parênteses as teses cogitativas que foram operadas e, ao invés de vivermos nelas, de as operarmos, operamos atos de reflexão dirigidos a elas, a fim de captá-las como o ser absoluto que são (Husserl, 1950).
  2. Logoterapia: o termo “logos” é uma palavra grega que significa “sentido”. Assim, a “Logoterapia concentra-se no sentido da existência humana, bem como na busca da pessoa por este sentido” (Viktor Frankl – criador da Logoterapia). Fonte: http://www.logoterapia.com.br/index.php?id=4, consultada em 29/08/2014 às 17h35.
  3. Código de Ética Profissional do Psicólogo na íntegra: http://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2012/07/codigo_etica.pdf
  4. Inconsciente Coletivo: teoria de Carl Gustav Jung que afirma ser um conjunto de sentimentos, pensamentos e lembranças compartilhadas por toda a humanidade. Assim, o inconsciente coletivo não se desenvolve individualmente, mas é herdado.

 

Por Milena C. Krachevski

 

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2 Responses

  1. Muito legal a matéria. Poderiam me passar o contato dessa Psicóloga?
    Sou estudante de Psicologia e seria legal trocar umas idéias com ela.
    Abraços.

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